Tênis, um exercício para o corpo e para a mente

Tênis, um exercício para o corpo e para a mente
  • João Fonseca venceu Novak Djokovic em partida histórica de quase 5 horas em Roland Garros 2026, revertendo uma desvantagem de 2 sets a 0: resultado que ilustra o papel da concentração e da estratégia no alto rendimento do tênis
  • Especialistas explicam que o tênis exige leituras rápidas de jogo, o que fortalece conexões neurais e beneficia funções cognitivas como planejamento e percepção
  • A prática vem crescendo no Brasil: o país sediou 35 torneios profissionais em 2025, e a participação de jovens de 8 a 18 anos em competições da CBT cresceu quase 35% no último ano

O dia 29 de maio de 2026 vai ficar marcado na história de vida do tenista brasileiro João Fonseca, de 19 anos. Às 15h30, no horário de Paris, ele entrou na quadra Philippe-Chatrier para o seu maior desafio profissional até agora: enfrentar o sérvio Novak Djokovic pela terceira rodada do torneio de Roland Garros, um dos campeonatos mais importantes do mundo.

A partida foi assistida com bastante atenção por milhões de pessoas ao redor do mundo e representou um confronto entre gerações. De um lado da quadra, o jovem brasileiro que carrega a promessa de se tornar um dos nomes mais importantes do tênis mundial em breve. Do lado oposto, o atleta sérvio 20 anos mais velho, que carrega mais de 100 títulos na bagagem, entre eles 24 grands slams. Só em Roland Garros, Djokovic já foi campeão três vezes.

Os dois atletas deixaram a quadra de saibro após 4h53 de uma disputa intensa, que terminou com a vitória do talentoso jovem carioca por 3 sets a 2. Mas o que aconteceu nessas quase cinco horas de partida, não foi apenas um jogo de tênis e sim um marco que será lembrado não só pelos atletas, como também pelos milhões de fãs do esporte.

João Fonseca e Djokovic. Foto: Reuters

Fonseca e Djokovic deram uma demonstração pública de condicionamento físico e também de estratégia, concentração, foco e capacidade de superação no mais alto nível. Logo no início da partida, parecia que o sérvio conseguiria a vitória com facilidade, após abrir 2 sets a 0, sem muita dificuldade. Já no terceiro set, João mudou a estratégia e a forma de encarar a partida: explorou espaços não atacados, conseguiu ler melhor o jogo do adversário, e manteve o foco, a concentração e a calma.

Com a mudança de postura, o brasileiro conseguiu vencer o terceiro set, virando uma chave e dando início a uma nova partida. Apesar da resistência oferecida pelo experiente Djokovic, João Fonseca também venceu os dois sets restantes, por 7 a 5 cada. Levou a partida e saiu consagrado, sob os olhares de Gustavo Kuerten, o Guga, último tenista brasileiro de grande destaque, que também já foi um jovem prodígio, tricampeão de Roland Garros.

— Pensei: ‘Vamos continuar, vamos continuar.’ Fui pensando ponto a ponto, game a game. As coisas começaram a acontecer — disse Fonseca após a partida.

Djokovic, mesmo derrotado, demonstrou mais uma vez que tem disposição e estratégia de sobra, ao enfrentar quase cinco horas de jogo, impondo dificuldade ao adversário, mesmo com um histórico de lesões, inclusive no joelho, a mais temida entre os atletas.

João Fonseca vence Djokovic em Roland Garros

— Sem dúvida nenhuma ele foi o melhor jogador em momentos importantes. Ele simplesmente encontrou jogadas e linhas incríveis. Foi impressionante da parte dele — contou o sérvio à imprensa.

Segundo a neuropsicopedagoga Valdileia Coutinho, especialista em educação inclusiva, a postura de João e Djokovic na partida não foi obra do acaso. O tênis é um esporte que exige leituras rápidas do jogo para que os atletas consigam antecipar os movimentos do adversário e tomar decisões em frações de segundos. Ainda de acordo com ela, essa dinâmica exige que o praticante trabalhe as áreas do cérebro responsáveis pela percepção, tomada de decisão e planejamento.

— Essas funções são fundamentais no nosso cotidiano. O desafio de prever jogadas e reagir rapidamente ajuda a fortalecer as conexões neurais e aprimorar a plasticidade cerebral, que é essencial para o aprendizado — explicou a especialista.

Valdileia Coutinho também afirma que atividades físicas com componentes estratégicos, como o tênis, estão associadas à melhoria do raciocínio lógico e da solução de problemas, conforme mostram diversas pesquisas científicas. Esses aspectos são muito importantes para o desenvolvimento cognitivo em jovens e também para a manutenção dessas funções entre idosos. De acordo com a especialista, a prática de jogar tênis, definitivamente, é um treino para o cérebro.

— A combinação de atividade física e desafio cognitivo torna o tênis uma forma eficaz de exercitar a mente. A prática regular vai resultar em um cérebro ágil e capaz de processar informações e responder aos desafios de forma mais eficaz. Aprender a lidar com a frustração e a ansiedade durante as partidas vai proporcionar habilidades de enfrentamento que transcendem o esporte, influenciando positivamente a vida da pessoa. Isso pode levar a uma maior autoestima, uma maior autoconfiança, já que os atletas aprendem a lidar com situações adversas e a regular suas emoções — finaliza.

A prática do tênis não traz benefícios apenas para os profissionais, mas também para os praticantes amadores. É o caso do executivo Jued Andari, que já desempenhou funções de liderança em diversas grandes empresas. Adepto do tênis desde a infância, ele diz que esporte o ajudou na vida pessoal e profissional:

— Como é um esporte muito meticuloso, feito no detalhe, a pessoa que pratica, carrega isso consigo. Então, quando a pessoa traz isso tanto para vida pessoal e principalmente para vida profissional, ela traz essas características da concentração e da resiliência — compartilhou Jued, baiano radicado no

Rio de Janeiro, que joga tênis semanalmente.

O executivo também frisa outra característica muito importante do esporte, principalmente para os atletas amadores:

— Você perde muito mais do que ganha. A cada 30, 40 segundos, você vai ter que viver com os sentimentos de frustração ou de alegria. Se for de frustração, você vai ter que passar uma borracha, apagar aquilo ali e voltar para o jogo. Se for de alegria, você vai ter que conter a sua adrenalina, o seu o êxtase. É um turbilhão de coisas que acontecem na quadra. É um esporte que traz muito aprendizado e ao longo dos anos você consegue trazer essas experiências e vivências para sua vida pessoal e profissional.

Outro benefício da prática constante do tênis é que o esporte auxilia na manutenção da autonomia do corpo e das funções cognitivas na terceira idade. A médica Marcia Umbelino, pós-graduada em geriatria, ressalva que não é ideal a pessoa idosa iniciar no esporte sem uma avaliação clínica criteriosa, já que diversos fatores precisam ser analisados, como a resistência da sua musculatura e articulações, e a sua capacidade de equilíbrio e cognição. Contudo, quem já pratica tênis desde a juventude, pode envelhecer melhor.

— A atividade física regular é um dos pilares para a preservação da saúde cerebral ao longo do envelhecimento. Ela melhora a circulação, ajuda no controle de doenças crônicas, favorece o sono, o humor e reduz fatores de risco para o declínio cognitivo. O tênis acrescenta um estímulo importante porque exige atenção constante, planejamento de movimentos, tomada rápida de decisões e adaptação a diferentes situações durante o jogo. Ainda não podemos afirmar que o tênis, sozinho, previna demências, mas ele reúne características bastante favoráveis para a manutenção da saúde cerebral quando faz parte de um estilo de vida ativo — explicou a geriatra.

Marcia Umbelino ensina que a manutenção da autonomia na terceira idade depende da preservação de diversas capacidades ao mesmo tempo: força muscular, equilíbrio, mobilidade, cognição e velocidade de resposta. O tênis exige que o praticante acompanhe a bola, interprete rapidamente a situação do jogo, tome decisões, mude de direção e mantenha o equilíbrio durante toda a partida. Logo, essa combinação de esforço físico e estímulo cognitivo favorece que o praticante mantenha sua independência funcional. No entanto, de acordo com a especialista, esses benefícios são mais bem aproveitados por idosos que já apresentam boa cognição e condições físicas compatíveis com a prática da modalidade.

Felizmente, este é um esporte que tem ganhado espaço no Brasil. De acordo com o relatório anual de atividades de 2025 da Confederação Brasileira de Tênis (CBT), o país foi sede de 35 torneios profissionais, incluindo as modalidades masculino e feminino, disputados em oito estados e 24 cidades.

— Ao longo do período, o país ampliou de forma significativa o número e a qualidade de torneios internacionais realizados em seu território. Registramos avanços técnicos e esportivos consistentes. Atletas brasileiros obtiveram resultados expressivos em circuitos profissionais e juvenis, elevando sua presença nos rankings nacionais e internacionais. O fortalecimento da base competitiva interna, aliado à realização de torneios de nível internacional no país, contribuiu diretamente para o desenvolvimento do alto rendimento — escreveu o presidente da CBT, Alexandre Farias, no relatório anual de atividades da entidade.

Os jovens também estão participando e aprendendo. O mesmo documento afirma que as edições de 2025 do Campeonato Brasileiro e da Copa das Federações contaram com a participação de 1.737 atletas, entre oito e 18 anos. O número representa um aumento de quase 35% em comparação com a quantidade de inscritos do ano anterior.

Essa adesão crescente não ocorre apenas entre atletas profissionais ou aspirantes, mas também entre os admiradores da modalidade. O Rio Open, maior competição de tênis do país, realizada anualmente no Rio de Janeiro, recebeu, em 2025 e 2026, um público de cerca de 70 mil pessoas por edição. Além de incentivar o interesse pelo esporte, o que pode resultar em novos praticantes, as partidas também podem representar uma forma de estímulo cerebral para o público. Afinal de contas, é preciso uma boa dose de atenção e foco, para conseguir acompanhar o movimento da bolinha, para cá e para lá.

Sobre o autor

Jornalista, especializado em gestão e direito esportivo, com passagens por diversas redações como O Globo, onde editou a coluna Panorama Esportivo, O DIA, CBN e Metrópoles. Atualmente é mestrando em Estudos Olímpicos e Gestão de Eventos na Academia Olímpica Internacional, na Grécia. Também é conselheiro de Ética da Confederação Brasileira de Lacrosse.

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