Pesquisa mostra que 4 em cada 10 adultos com insônia tomam remédio para dormir; zolpidem é o mais usado

- Consumo de zolpidem segue alto no Brasil: mais de 45% das pessoas com insônia acompanhadas por um novo estudo da USP com o Hospital das Clínicas tomam o remédio continuamente
- O uso prolongado da medicação tem riscos sérios e pode causar alucinações e amnésia. A alternativa mais segura indicada por médicos é a terapia cognitivo-comportamental para insônia


Um novo estudo realizado por pesquisadores da USP em parceria com o Hospital das Clínicas mostrou que o consumo de zolpidem segue alto entre os brasileiros com problema para dormir: mais de 45% das pessoas acompanhadas pela pesquisa afirmaram tomar o remédio continuamente (mais do que cinco vezes por semana). E entre os participantes que afirmaram fazer uso de medicação para dormir, 40% deles assumiram não ter prescrição médica.
O uso de zolpidem para indução do sono já havia ganhado destaque na imprensa logo depois da pandemia de coronavírus: em 2020, o uso do medicamento entre os brasileiros cresceu 18% e, nos primeiros cinco meses de 2021, seu consumo aumentou mais 13%. Segundo esse mesmo estudo da USP, o consumo de zolpidem aumentou 500% no Brasil, na última década, especialmente entre mulheres e idosos. Médicos e imprensa chegaram a falar que o país vivia uma epidemia.
Quando o zolpidem chegou no Brasil?
O zolpidem começou a ser comercializado no Brasil na década de 1990, mas foi popularizado mesmo em 2007, quando sua patente expirou e versões genéricas chegaram às farmácias. Na época em que surgiu, o remédio foi considerado uma solução mais rápida, eficiente e com menor propensão à dependência comparado aos benzodiazepínicos, como o clonazepam, até então os mais disseminados no tratamento de distúrbios do sono.
O estudo da USP com o Hospital das Clínicas, liderado por Renatha El Rafihi-Ferreira e publicado na Sleep Science, acompanhou 1.158 adultos com sintomas de insônia, dos quais 60% afirmaram fazer uso recorrente de algum tipo de medicação indutora de sono. O mais difundido no grupo eram as chamadas drogas Z, entre as quais, o zolpidem é a mais popular, seguidas do uso de antidepressivos. Entre os que tomavam medicações para dormir de forma contínua, 40% o faziam sem prescrição médica, o que preocupou os pesquisadores.

O zolpidem tem efeitos sedativos e hipnóticos e seu uso é recomendado apenas a curto prazo. A indicação é que o paciente não tome o remédio por mais de quatro semanas. Mas essa regra muitas vezes não é levada em consideração. O próprio estudo lembra que o tratamento mais indicado para insônia crônica é a terapia cognitivo-comportamental para insônia, que não conta com a prescrição de medicamento, trabalhando muito mais a questão dos hábitos e preocupações que podem estar atrapalhando o sono do paciente.
Os efeitos colaterais do zolpidem
No X, antigo Twitter, é fácil encontrar relatos de usuários que fizeram compras online, enviaram mensagens ou postaram conteúdo nas redes sociais e só descobriram no dia seguinte. Um dos casos que viralizou na rede social foi a de um usuário que tomou o comprido e acabou gastando R$ 9 mil em pacotes de viagem.
Há ainda histórias em que o risco é físico. Foi o caso do médico Vitor Piva, que foi bastante noticiado. Em entrevistas, Piva contou que tomou um comprimido da medicação depois de chegar do plantão por ter muita dificuldade para dormir. O médico não lembra de mais nada: acordou no dia seguinte na cama de uma UTI em São Paulo. Piva tinha caído da sacada de seu apartamento no sétimo andar. A polícia chegou a investigar o caso como tentativa de suicídio, até concluir, três meses depois, que o acidente foi causado por alucinações induzidas pelo zolpidem.
O zolpidem tem efeito rápido, entre 15 e 30 minutos após sua ingestão, e a indicação é que a pessoa tome e vá direto para a cama. O fármaco tem um efeito de desligar o cérebro e, quando a pessoa ingere o medicamento e segue com suas atividades, pode ter alucinações ou agir como se estivesse sonâmbulo.
Além disso, o remédio tem o que os médicos chamam de “meia-vida” curta. Isto é, o tempo em que a droga demora para ser eliminada do organismo é considerado rápido. Quanto mais rápido o efeito da droga e mais curto o tempo em que permanece em nosso corpo, maior é seu potencial de gerar dependência.
O sono é um problema para grande parte dos brasileiros: uma pesquisa da Fiocruz, realizada em 2023, mostrou que 72% dos brasileiros já sofreram com alguma alteração do sono, por exemplo. E, enquanto muitos falam de suplementos naturais, como a melatonina e o magnésio, a pesquisa mostrou que a maioria dos brasileiros insones ainda faz uso de remédios controlados.
Referências
Bonini, A.F., El-Rafihi-Ferreira, R., Filho, H.S.L.S et al. “Sleep Medication Use and Associated Factors Among Adults with Insomnia Symptoms: A Cross-Sectional Study in Brazil”. Sleep Science, 19, 2 (2026). https://doi.org/10.1055/s-0046-1825529
Mendes, L. R., Farias, L. A. de F. “O uso do Zolpidem no período da pandemia do COVID-19: uma revisão narrativa”. Revista Científica Eletrônica Do Conselho Regional De Farmácia Da Bahia, 4, 1 (2025). https://doi.org/10.70673/rcecrfba.v4i1.61